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Leio com frequência mensagens de mães à procura de dicas para introduzir comida dita “inteira” ao seu bebé. Quando fazer, como fazer, o que oferecer e rematando sempre com um “mas o meu bebé ainda não tem dentes!” Ora… isto pouco interessa, se querem saber. E digo isto, porque tive uma desdentada até aos 10 meses, que quando descobriu os pedaços, não queria comida triturada.

Pois é, a T. não teve dentes até aos 10 meses (a L. foi uma despachada e aos 7 meses estava servida de dentes). E os dois primeiros que lhe apareceram só começaram a servir para alguma coisa lá para os 11 meses, quando começaram a ter tamanho de gente. Vieram mais quatro aos 12 meses, assim tipo jackpot, e só agora aos 17 meses, os molares começaram a dar ar da sua graça. 

O que tenho a dizer-vos é que isto não é uma questão de dentes, mas de sensibilidade para perceber que eles já sabem como funciona a boca e estão preparados para mastigar.

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Sou-vos muito sincera, adoro o método Baby Led Weaning para introduzir a alimentação complementar aos bebés. Vai-se directo ao assunto, oferecem-se os alimentos como são, sem atalhos, com claridade e honestidade para o bebé. Não há cá “feitiços” de sopa mais doce, mais amargada, mais azeda, não há sabores camuflados, cores misturadas, nem texturas imperceptíveis. Está ali tudo como é, às claras, os brócolos são brócolos, são verdes e tenros, uma cenoura é uma cenoura, cor-de-laranja e doce. Mas, eu não tive coragem de oferecer logo alimentos assim às minhas bebés. Fui vítima do sistema das sopas e dos purés, porque me transmitiam mais confiança como formas de oferecer a alimentação complementar às minhas filhas. E no final de contas, isso é o mais importante: a confiança. Se estivermos confiantes, transmitimos essa confiança ao bebé e é meio caminho para que tudo corra bem. 

Como disse, não esperei que a T. tivesse dentes para me aventurar para além das sopas. Com 7 meses, tanto a L. como a T. começaram as açordas e farinhas-de-pau e em poucos dias andavam com a boca às voltas, com os maxilares para cima e para baixo a fazer coisas muito para além de abrir e engolir. As açordas e farinhas-de-pau têm uma consistência pegajosa, que de alguma forma deve provocar esse efeito. Mas só quando passei um pedaço de brócolos e cenoura para as mãos, percebi que estavam preparadas para a deixar os purés finamente triturados. 

Em suma, isto não é uma questão de dentes, mas sim de oportunidade. Como o pediatra Carlos González muitas vezes refere, existem janelas de oportunidade para os nossos bebés fazerem determinadas coisas. O curioso é que somos muito atentos a várias delas, como gatinhar, andar ou falar, mas no que toca a alimentação temos mais dificuldade em perceber. Mas é como tudo, uma questão de tentar e de os deixar tentar. Tal como um bebé, quando se coloca de pé, tenta dar um passo e sabemos quase de certeza que vai cair, não vamos a correr senta-lo. Não. Deixamos que tente, colocamos os braços para ajudar a cair e não se magoar. Com a alimentação é igual: deixar que tentem e ficarmos ao lado a amparar qualquer perigo. 

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A T. nunca precisou de dentes para comer o que lhe oferecia, nunca se engasgou com pedaços (engasgou-se com puré de maçã!) e bastou-me ouvi-la, vê-la e sentir que estava preparada (e que eu também). Por isso, mães de bebés sem dentes, nada temam, olhem para o bebé com atenção e percebam se eles estão prontos para uma nova aventura alimentar. 

 

P.S. nenhum dente foi maltratado durante o registo fotográfico deste post… simplesmente não “existiam”, ainda.